São Thomé das Letras,
a terra dos puxadinhos
Publico aqui alguns relatos sobre meu intenso carnaval em São Thomé das Letras.
A primeira surpresa vivida ao chegar na pitoresca São Thomé, foi descobrir que a cidadela, ao contrário do que eu esperava, não é toda de conservadas casinhas de pedra sobre pedra. Pelo contrário, parece mais com um canteiro de obras ou um favelão. Todo habitante de São Thomé parece ter aderido a mais uma mania, além dos ETs, duendes, fadas, baseados, pinga com mel e vinho Marcon: o puxadinho. Todo barraco tem sua própria lage, seus quatos adjundos e seus segundos-andares acrescidos sobre a construção original.
A terra dos Smurfs
Não encontrei duendes nem fadas na terra dos Smurfs – talvez porque tenha ficado sóbri o tempo todo (ou quase). Mas tenho que admitir que em alguns momentos me senti em uma aldeia encantada perdida em uma dimensão paralela: a minúscula cidade simplesmente “termina” na encosta de um morro, em uma pedreira, ou em uma estrada interditada, como se o único acesso a ela fosse através de um portal dimensional.
Walleska Cristinah
Mas a maior de todas as surpresas foi encontrar por lá
Walleska Cristinah, vulgo
Vanessa Marques(como assina sua persona virtual). Dada como desaparecida no blog do
Mytho , ninguém tinha desde então qualquer pista sobre a Rainha da ZL. Ao chegarmos em São Thomé, deparei-me com um hippie completamente chapado cantando Elymar Santos e desembaraçando sua longa barba. Um pouco mais adiante, estava Walleska, bem mais magras do que seus anteriores 300 kilos, sentada sobre um cogumelo gigante, conversando com duendes e fadas invisíveis. E ela afirmou que não tinha tomado nem um gole de Catuaba Selvagem ou de vinho Chapinha no último mês.
Preocupados com a garota, resolvemos levá-la para nossa pousada, onde ficaria sob nossa vigília e cuidados.
Desde então, começou uma tempestade sem igual Choveu ininterruptamente durante 2722 dias e 2721 noites, período em que nossa existência se resumiu a comer e dormir, já que a chuva torrencial nos impediu de sair do quarto. Walleska logo retomou sua forma obesa, atingindo, dessa vez, 301 kilos. Eis que depois de tanto tempo na cama, a magia do lugar tomou conta de nós. Certa manhã, quando acordamos – ou tarde, ou noite, impossível saber já que não tínhamos hora para dormir – notamos que raízes brotavam de nossos corpos e penetravam nossas respectivas camas e o chão sob elas. Enraizados, com cabelos longos, gordos e sujos, logo nos tornamos a grande atração turística da cidade. Pessoas do país inteiro íam a São Thomé para ver os “paulistas enraizados”.
Certo dia, ouvi uma turista comentar com sua acompanhante: “está vendo, sua descrente? Não te disse que gnomos existem?! Olha um lá!! Eu falei, eu falei!!”. Ela apontava para os pés da cama de Walleska, onde uma pequena criatura a observada, com lágrimas nos olhos. Na verdade, era o
Mytho quem estava lá, lamentando a sorte da pobre Walleska, mas ninguém notou a diferença e, assim, os gnomos ganharam um crédito nunca visto antes. A partir de então, todos passaram a acreditar em sua existência, e eles voltaram a ser uma grande atração, dividindo conosco a atenção do público.
Por esses tempos, quando já estávamos naquelas condições há quase 30 mil dias, as fadas não se agüentavam mais de ciúmes. Ninguém mais as procurava. Nas lojas, todos compravam bonequinhos nossos e do
Mytho - sempre acreditando que ele é um duende – feitos de maizena e cola, e os bonequinhos de fadas sobravam nas prateleiras. Logo deixavam de serem feitos. E, em São Thomé, assim como na Terra do Nunca, cada vez que alguém diz convicto “eu não acredito em fadas”, uma delas morria. Elas estavam à beira da extinção. Para salvar a espécie, reuniram suas forças e juntas, conseguiram nos devolver as nossas formas originais, e nos livrar do claustro.
Livres, finalmente livres. Era preciso comemorar. Sentamos em um boteco e pedimos a primeira pinga com mel que tomaríamos em cerca de 80 anos. A primeira de muitas. Bebemos uma atrás da outra e ali ficamos, por cerca de 5 mil dias, bebendo. Era muita alegria pedindo vasão. Mas claro, Walleska Cristinah ficou em estado lamentável. Enquanto os outros resistiam bravamente a perder o pouco de sobriedade que nos restava, ela saiu correndo do boteco, tropeçando e caindo diversas vezes. A última delas, aos pés da ladeira que leva ao Bar do Dois, ao Cruzeiro e à Casa da Pirâmida. Caída, de quatro, ela enrolou calmamente um baseado e o levou à boca. Depois, com o baseado no canto da boca, subiu de quatro aquela ladeira, cantando “ala la ô, ô ô ô, ô ô ô”. Não a vimos mais esta noite. No dia seguinte, já sóbrios mas com uma tremenda ressaca, subimos a ladeira à procura dela. A encontramos sob o Cruzeiro. Muito queimada de sol, tinha uma marca branca em forma de cruz sobre o corpo, deixada pela sombra do Cruzeiro. A baguilha um pouco aberta. A garrafa de vinho Marcon vazia, tombava ao lado. Dezenas de camisinhas indianas, dessas distribuídas gratuitamente pelo governo durante o carnaval, estavam jogadas a seu lado, usadas. Do outro lado, um hippie imundo, com cabelos e barbas até a cintura, despertava. Com um tremendo bafo de pinga e nenhum dente na boca, virou-se para Walleska e perguntou, carinhosamente: “foi bom pra você?”
Nunca mais a vimos desde então. Voltamos para São Paulo sem ela. As últimas informações que tivemos, é a de que ela hoje habita o Vale das Borboletas, com seu amado e diversas fadas, e carrega trigêmeos no bucho. Há quem diga que ela própria se transformou em fada. Mas uma coisa é certa: ela encontrou a felicidade em São Thomé, essa terra amara, linda, brejeira.
Assim foi meu carnaval. Porque em uma cidade confinada a Cem Anos de Solidão, o improvável acontece. Ou não.